25 de Abril

Escola da PIDE: ocupação à portuguesa

Quando a coluna militar, comandada por Brandão de Brito, chegou à entrada da Escola Técnica de Polícia (ETP), conhecida por Escola da PIDE, na Estrada de Benfica, n.º 241, em Sete Rios, um contínuo entregou a chave ao oficial que comandava a tropa. Era Sábado de manhã e estávamos a 27 de Abril. Revelar-se-íam falsos, os boatos segundo os quais alguns membros da polícia política do anterior regime se tinham entrincheirado no edifício preparando-se para oferecer resistência aos revoltosos.

Redacção

17/04/2018

A coluna militar vinha do Palácio da Justiça na Avenida Marquês da Fronteira, composta por soldados e fuzileiros, era uma força ligeira acompanhada por alguns jornalistas, entre outros civis. O próprio contínuo deu algumas explicações sobre o funcionamento da ETP, assim como elucidou sobre o funcionamento da escola.
Entretanto, uma multidão concentrou-se na frente do edifício, mobilizada pela convicção de que se encontravam agentes no interior do edifício. Pelas 18h30 chegou uma coluna de blindados do Exército. Para um deles foram carregados a braços por fuzileiros três arquivos de madeira.

Quinze minutos depois, chegou um major que falou para a multidão: “Acreditem em nós. Nós cá estamos para fazer justiça!” para gáudio da multidão que entretanto se afastou do acesso à ETP. Dos portões saíram dois “Land Rover” fechados que tinham entrado antes no pátio. Aos gritos “Assassinos! Assassinos!”, os dois veículos saíram a grande velocidade em direcção à Avenida Columbano Bordallo Pinheiro. Cada um deles transportava um agente e a tentativa da multidão de se atirar aos veículos, foi impedida pelos fuzileiros e soldados. A seguir a multidão dispersou. Os jornais relatam que os dois “pides” tinham sido transportados para a ETP a fim de aguardarem escolta. Afinal, só mesmo existia o contínuo que entregou as chaves aos militares. 

Memória abandonada 

O edifício foi abandonado em 1974. Durante uma dezena de anos, foi ocupado por algumas famílias. Depois, ainda se falou transformá-lo num museu em homenagem aos opositores ao Estado Novo. Actualmente, do edifício sobra uma ruína, sendo um espaço que serve de parque de estacionamento improvisado. No âmbito da requalificação de Sete Rios prevê-se a construção de um jardim público e nas imediações vai surgir uma urbanização de luxo.

Apenas um painel na estação de caminhos-de-ferro de Sete Rios (Lisboa) de Rogério Ribeiro, um artista que pertenceu ao PCP, lembra remotamente a presença da polícia política do Estado Novo em Sete Rios. Numa alusão ao topónimo do local, pode ler-se, descrevendo uma linha sinusoidal: “sete rios... sete fontes... sete bicas... sete bruxas...sete medos...e uma esperança”.


O que era a ETP?


A Escola Técnica de Polícia (ETP) destinava-se aos agentes da então denominada PIDE, tendo em 1948 sido instalada em edifício próprio em Sete Rios. No edifico principal existiam diversas salas de aula, uma das quais com projector de cinema, uma biblioteca, um museu, um laboratório e uma capela.
Nas traseiras, existia um anexo com ginásio e dormitórios, para além de uma piscina, uma carreira de tiro e uma horta. Na entrada dos dormitórios, um aviso datado de 8 de Fevereiro de 1972, assinado por Lopes Velozo, director da instituição, dava conta aos formandos que perderiam direito de acesso aos dormitórios se continuassem a dar mostras de falta de higiene. 

O museu da ETP continha vasta documentação sobre os movimentos oposicionistas e a actividade da polícia política. As paredes estavam forradas com cartazes e propaganda dos movimentos estudantis universitários. Embora houvesse presença de militantes civis, a maior parte do acervo conseguiu ser salvo de roubos e desvios, pois o comandante da força militar garantiu a sua segurança. Nem sempre foi assim nas diversas ocupações de entidades do Estado Novo, nomeadamente nos serviços de censura de imprensa e na sede da DGS, de onde foi subtraída documentação vária. 

História em vitrines 

Numa das vitrines do museu estavam expostas fotografias, símbolos e insígnias do Grande Oriente Lusitano que tinha sido dissolvida em 1926. Noutra mostravam-se os despojos do atentado, ocorrido em 1936, contra Oliveira Salazar, na altura presidente do Conselho: estilhaços da bomba, o boné de um dos autores do atentado, os botins de um outro para caminhar no cano de esgoto em que foi colocada a bomba, fios eléctricos que serviram para deflagrar o engenho.

Este atentado foi levado a cabo por anarco-sindicalistas , liderados por Emidio Santana, tendo sido condenado por diversos sectores, inclusivamente nas páginas do “Avante!”. Um outro mostruário exibia numerosos jornais clandestinos, carimbos das inscrições utilizadas nas paredes. O movimento fundado por Rolão Preto, o nacional-sindicalismo, também tinha direito a um espaço próprio com vários documentos, fotografias e insígnias. A guerra civil de Espanha também tinha o seu espaço. O museu ainda tinha uma máquina de impressão do “Avante”, órgão do Partido Comunista Português (PCP).

Numa das salas de aulas foi encontrado um dossier no qual se documentavam diversas formas de tortura, para além de diversas sebentas sobre várias matérias, desde a guerra subversiva até à psicológica, passando pela doutrinação política, higiene tropical, a lei orgânica da DGS e exemplares policopiados da “Carta a Garcia”. Noutra sala de aula expunham-se diversos engenhos explosivos, como livros armadilhados, gravadores dissimulados, projecteis envenenados, instrumentos de tortura.

Fotografias de identificação de vários dirigentes da oposição, entre os quais Álvaro Cunhal (PCP), Francisco Martins Rodrigues (fundador da Frente de Acção Popular), Henrique Galvão, entre outros. Salazar estava representado noutra sala de aula com uma poesia escrita por ele aos dez anos de idade. 

Biblioteca e capela 

Na biblioteca, bem documentada, existiam obras de Lenine, Engels, Marx, Staline, Gramsci, Garaudy, Naville, entre outros. As revistas também estavam presentes: “Les Temps Modernes”, “L’Espirit”, “La Pensée”, “Critique”, entre outras. Também não faltavam as obras proibidas dos nossos melhores escritores. A capela estava repleta de imagens, talvez do século dezassete a fazer fé em jornais da época, entre os quais um Cristo, uma Nossa Senhora, um Santo António e um S. Jorge a matar o dragão.

A 1 de Dezembro de 1938 foram criados dois cursos de aproveitamento profissional destinados aos agentes da PIDE: o “Curso Geral” com a duração de seis meses e “Curso Especial” com a duração de quatro meses. Em 1946, foi criado o “Curso Elementar de técnica policial”, com a duração de um mês, destinado a todos os funcionários de organismos policiais. Este curso entrou em funcionamento a 1 de Julho de 1947 e substituiu o “curso geral”. Depois da instalação da ETP em Sete Rios, passaram a funcionar um Curso Elementar, um Curso de Aperfeiçoamento e vários Cursos de Especialização, designadamente, de fotografia, de identificação, de criptografia e de laboratório.

Os Cursos de Aperfeiçoamento destinavam-se a agentes de 1.ª e 2.ª classe e os Cursos de Especialização a chefes de brigada, sub-inspectores e funcionários com "conhecimentos especiais ou aptidão destacada". Para quem passava em Sete Rios, era comum avistar agentes da polícia política no terraço e o passeio junto ao muro da escola era proibido à circulação dos transeuntes.

Na madrugada de 20 de Novembro de 1972, a ETP sofreu atentado organizado pela Acção Revolucionária Armada (ARA), organização criada pelo PCP, do qual resultou uma vítima mortal que estava no “sítio errado na hora errada”. O atentado seria reivindicado em comunicado, no dia seguinte, no qual se afirmava ter-se provocado a “destruição parcial da Escola Técnica da odiosa PIDE-DGS”. Entretanto, o regime tinha atribuído o ataque às forças “maoistas” ignorando o PCP. f

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