25 de Abril

Rádio Clube Português:
"México" conquistado sem incidentes

"Aqui Grupo Dez. Informo México conquistado sem incidentes". Eram 3h20 da madrugada de 25 de Abril de 1974 e quem assim falou através de um emissor-receptor militar, foi Santos Coelho dando conta do êxito da ocupação dos estúdios do Rádio Clube Português (RCP), “México” nome de código, na Rua Sampaio Pina, ao Estado Maior do Movimento das Forças Armadas (MFA) instalada no Regimento de Engenharia 1 (RE 1) na Pontinha.

19/04/2018

Foi através dos microfones RCP, transformado em posto de comando do Movimento das Forças Armadas (MFA), que foram transmitidas a todo o país as orientações dos militares durante o 25 de Abril. E por isso teve um cognome: “Emissora da Liberdade”. “O Rádio Clube Português foi fundamental porque não só constituiu a minha antena de posto de comando para poder dizer à população o que se estava a passar, mas fundamentalmente porque pude lançar o 'E Depois do Adeus', a senha para o arranque da operação militar em toda a área da região de Lisboa, chegando até Torres Novas e Santarém”, lembra Otelo Saraiva de Carvalho, então major que assumiu o comando operacional dos revoltosos.

A operação militar tinha começado no Batalhão de Caçadores 5, onde Cardoso Fontão reúne as poucas dezenas de oficiais presentes que manifestam adesão unânime. Dele sairão duas companhias: a primeira tem como objectivo o Quartel General; a segunda, o cerco e a defesa da zona do Rádio Club Português. Entretanto, o “10.º Grupo de Comandos" que tem por missão a ocupação do RCP, ouve as senhas dos revoltosos, primeiro na Emissores Associados de Lisboa. às 22h55 de 24 de Abril emitindo “E depois do Adeus” de Paulo de Carvalho; depois no programa “Limite” da Rádio Renascença, Leite de Vasconcelos lançou a segunda e derradeira senha para o início do golpe de Estado, e prepara-se para cumprir a sua missão.

O grupo é liderado pelo capitão Santos Coelho, acompanhado pelo tenente-coronel Sacramento Gomes, majores Costa Neves e Campos Moura, capitães Correia Pombinho, Mendonça de Carvalho, Santos Silva e Santos Ferreira, todos oficiais da Força Aérea.


Alvo prioritário


O Radio Clube Português foi desde o início um alvo prioritário, não só pelo alcance da sua antena, mas também porque dispunha de autonomia energética, devido a geradores de electricidade que se vieram a revelar fundamentais. Efectivamente, por volta das 4h00 da manhã a electricidade, assim como os telefones, foram cortados, mas a “Rádio da Liberdade” manteve-se no ar devido aos geradores. Mas o envolvimento (digamos involuntário) do RCP na revolta começou mais cedo: aquando da escolha das senhas, numa reunião no Apolo 70, entre Otelo, Costa Martins (mais tarde ministro do Trabalho de Vasco Gonçalves) e João Paulo Diniz, jornalista que trabalhava nos Emissores Associados de Lisboa e no RCP.

No encontro, Otelo defendeu que a primeira senha fosse o "Venha Mais Cinco", do José Afonso, tendo sido convencido por João Paulo Diniz que seria má escolha, pois tratava-se de uma canção de um autor proibido pelo regime, o que poderia levantar suspeitas. O "E Depois do Adeus" de Paulo de Carvalho foi sugerido por Paulo Diniz uma vez que não causaria alarme.

A ocupação da RCP apanhou Joaquim Furtado de serviço tornando-o no primeiro porta-voz do MFA. Mas a madrugada trazia ainda algum improviso: por exemplo quando os telefones foram cortados, os revoltosos utilizaram uma cabine pública, assim como se registou algum atraso na chegada das tropas que deviam proteger o emissor de Porto Alto, que assegurava a emissão do RCP, o que esteve em vias de provocar, por ordem do Governo, o corte da emissão.

Revolta atrasada


Às 03h07, as tropas comandadas pelo Major Fontão, começam a sair para a rua, já com atraso, pois a ocupação da RCP estava programada para as três da manhã. Passados 12 minutos, os revoltosos chegaram às portas da estação, forçaram a entrada e anunciaram ao porteiro o golpe de Estado para instaurar um regime democrático. Joaquim Furtado foi surpreendido por um deles no gabinete onde preparava os noticiários. No corredor encontrou o capitão Santo Coelho que o informou ser “militar de um movimento que queria derrubar o regime, acabar com a prisão, com a guerra e fazer eleições livres”, recorda o próprio. A programação foi logo alterada, passando marchas militares, sendo o primeiro sinal de mudança. O controlo de “México” estava consumado. 

Entretanto, Luís Filipe Costa, chefe de redacção do Rádio Clube Português, estava tranquilamente em casa com o rádio desligado. A emissão consecutiva de marchas militares fez com que alguém telefonasse a Filipe Costa para saber a causa. Após uma conversa telefónica com Joaquim Furtado, dirigiu-se para os estúdios da Sampaio Pina O primeiro comunicado foi lido 26 minutos depois da hora prevista.

Na programação operacional, essa leitura deveria ter acontecido às quatro em ponto, o que não aconteceu porque as tropas que deveriam ocupar o aeroporto estavam atrasadas. Os primeiros quatro comunicados já estavam previamente redigidos. Em princípio a sua leitura deveria ser feita pelo capitão Santos Coelho que nada percebia de tecnologia radiofónica. Foi assim, que a tarefa foi atribuída a Joaquim Furtado: “Li no tom que me pareceu mais adequado.  Procurei que o texto parecesse um comunicado”, lembra.

A população não respeitou as orientações do MFA e saiu à rua, o que acabou por ser uma das razões do sucesso dos revoltosos. Muitas delas dirigiram-se para a Sampaio e Pina. Segundo relatos ocorreram cenas caricatas: algumas pessoas ficaram irritadas com os militares que faziam segurança à zona porque não as deixavam circular. Segundo Costa Neves, “houve quem pensasse que o golpe era de extrema-direita.

Lembro-me até de um caso de um popular a quem tive de dizer “Vá sossegado para casa e ouça a rádio. Vai ver que vai ter uma surpresa agradável”. Os militares permaneceram no RCP até ao dia 26, tendo passado cerca de dois dias sem dormir. Eram os “homens sem sono” do posto de comando do MFA.f

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